Category Archives: Cultura

Calcanhoto sobe ao altar da Union Chapel e nao decepciona aos fas em Londres

Quando Adriana Calcanhoto subiu ao palco da Union Chapel envolta numa manta cinza e preta e entoou uma cancao eclesiastica em Latim, a audiencia presente nao esperava que o banquinho e violao e a simplicidade dominaria o resto do show. Apesar de afirmar que o show “nao e uma democracia”, a carismatica cantora acatou a todos os pedidos da plateia – ate dos mais insistentes que chegaram a atrapalhar o andamento da apresentacao em algumas ocasioes. Pedidos que provocaram um reticente “Nossa senhora!” da artista, ajustando o violao e balbuciando palavras da letra da musica, Adriana nao decepicionou e reverberou na igreja um de seus primeiros sucessos “Mentiras” para a alegria de todos – dificil de imaginar, mas ela realmente levou uns minutos para recordar do classico.

Com certeza o show Trobar Nova nao decepciona nenhum fa – seja brasileiro, ingles, portugues, alemao, espanhol… – incluindo todos os grandes hits da cantora e compositora porto-alegrense “Mais Feliz”, “Nosso Amor”, “Inverno”, “Clandestino”, “Metade”, “Cores”, “Devolva-me”, “Vambora”; alem de “Carioca”, “Maresia” e “Eu assim sem voce” para fechar o bis. Para quem ainda nao ficou satisfeito, Adriana com seu estilo incomparavel interpretou “Music” de Madonna com pitadas de Sade e “Soldier of Love”, “Eu sei que vou te amar” de Vinicius de Moraes, o poema de Augusto dos Campos “Sem Saida”, e “Nature Boy” conhecida pelo publico brasileiro na voz de Caetano Veloso. Indiscutivemente uma trovadora nata que merece toda sua fama e reconhecimento artisco, seja nos palcos ou altares desse mundo afora.

Advertisements

Orquestra Imperial retorna aos palcos londrinos no próximo dia 12

Separem seus melhores sapatos para o domingo, 12 de julho, pois as cornetas, tambores, violões e vozes já estão afinados. Se não a melhor, mas com certeza a mais famosa banda de gafieira Orquestra Imperial retorna a Londres, desta vez se apresentando no grande salão Koko, em Camden Town, para uma noite inesquecível.

Formado em 2002, um grupo de amigos se reuniu com o objetivo de formar uma orquestra tipicamente de gafieira, retomando sambas antigos da década de 40 e 50, sem deixar de lado mambos e boleros. A ideia deu tão certo que até hoje eles são requisitados para tocar em diversas cidades no Brasil e no exterior.

Sendo quase impossível reuni-los para shows internacionais, o concerto de Londres é algo bastante raro, pois os músicos da Orquestra Imperial têm carreiras e projetos diversos. Então, a desculpa para este show, será a divulgação do primeiro álbum da Orquestra “Carnaval Só no Ano que Vem”.

Prova da dificuldade de reunir sua trupe é a ausência de nomes como Rodrigo Amarante e Pedro Sá, porém cerca de 20 músicos, incluindo o legendário Ipanema Wilson das Neves, estarão conduzindo e embalando os dançarinos no Koko. Idealizado pelo produtor e músico Kassin, confirmado para estar em Londres, a Orquestra Imperial não ensaia e não tem repertorio fixo.

“Nós nem temos certeza de quem vai estar lá!”, afirma Kassin. “Não ensaiamos, não temos repertorio. Se o Wilson das Neves quiser tocar alguma música sua, ele toca e pronto…. Tem dias que chegamos a tocar mais de quatro horas”, conta Kassin, dando uma idéia de como a banda toca.

ORQUESTRA IMPERIAL
Dia 12 de julho

Koko, Camden Town
www.comono.co.uk

Companhia de dança Balé de Rua estréia em Londres

Uberlandenses voam a Europa para uma curta temporada de duas semanas no Centro Cultural Barbican

Bale de Rua

Bale de Rua

A companhia de dança mineira Balé de Rua, após fazer uma temporada européia no passado, foi convidada a voltar ao velho mundo pelo famoso centro Cultura Barbican, onde ficará duas semanas com o espetáculo “Balé de Rua”, a partir do próximo dia 21. Com 15 bailarinos e mais três membros da companhia, o grupo irá mostrar ritmos, passos, danças, batuques, percussão, ou seja, o característico estilo Balé de Rua de fazer dança.

Aclamada pela precisão e criatividade do trabalho artístico, a Companhia Balé de Rua também é reconhecida pelo desenvolvimento de aulas e oficinas voltadas a menores carentes. Desde sua fundação, em 1992, e após a abertura de centro e turmas de dança, é incontável o número de garotos que passaram pelas classes do Balé de Rua.

O Brazilian News conversou com o diretor e preparador técnico da companhia, Fernando Narduchi, para saber mais detalhes do espetáculo e a viagem a Londres.
Como surgiu a oportunidade do balé de Rua voltar a Europa e vir a Londres?

Fernando Narduchi: É um processo de longos anos. Eu diria que tudo começou há 17 anos, quando a gente fundou a companhia, e foi uma sequência de fatos para a gente chegar hoje a ter essas apresentações marcadas. Mas esse contato foi em função da nossa turnê do ano passado, que passamos por Paris e Edimburgo, onde estreamos este espetáculo que foi desenvolvido especialmente para o público internacional. Foi mais de um ano para criar e estamos orgulhosos de estrear na capital inglesa com esse show. Então, há uma expectativa muito grande nossa, de estar aí pela primeira vez, pela importância da cidade e do próprio Barbican. Acho que é um conquista muito grande para nós, como companhia de dança brasileira. Esperamos que o povo de Londres goste e aprecie nosso trabalho.

Como foi a transição para se tornar um profissional de dança?

FN: Nos anos 80 houve um movimento de rua muito forte, em Uberlândia, onde havia vários grupos independentes que não tinham progressão na mídia e nem eram conhecidos. Então tudo começou mesmo por nossa vontade de dançar! Foi o quê nos uniu, o quê nos aproximou e como nós nos conhecemos. Nós não fazíamos parte da cultura oficial de lugar nenhum e conseguimos conquistar um espaço na cidade, começamos a nos apresentar em festivais e eventos. Não só nós do grupo Balé de Rua, mas os grupos desse movimento que estava acontecendo nos anos 80 e 90 aqui. A partir daí, nós seguimos nosso objetivo que era se profissionalizar, nosso sonho era podermos viver de dança. Transformar a dança numa profissão, porque a gente fazia aquilo somente por amor, por paixão e por tesão. Ainda fazemos por esses motivos, só que hoje nós conseguimos fazer com que a dança seja também nosso meio de vida.

Os dançarinos que compõem o grupo hoje são todos dançarinos profissionais?

Bem, no nosso grupo hoje, cerca de 30% ainda são da época de fundação. Dos 15 bailarinos que compõe a Companhia Balé de Rua, alguns vêm da primeira geração, outro da segunda geração. Tem gente que dança há 10 anos, outros que dançam há oito. Nessa ida para Londres tem um que irá estrear com a companhia profissional, será a primeira vez que ele vai viajar para o exterior com a gente. Ele é aluno nosso há um ano e estagiário, e agora ganhou espaço dentro do grupo profissional.

Como são selecionados esses novos dançarinos?

Quando a gente virou profissional, tivemos a iniciativa de abrir escolas de dança em diversos pontos da cidade. Cada bailarino tentou abrir uma frente de trabalho do bairro em que mora. Essa iniciativa do grupo Balé de Rua tem o objetivo de descobrir talentos, criar oportunidades para jovens de baixa renda, pois nós viemos da periferia e conquistamos esse espaço. Então, nós temos condição, hoje em dia, de abrir ainda mais portas com esse projeto ‘Novos Talentos’. Hoje nós somos seis grupos de danças, um grupo de percussão – que o artista Nana Vasconcelos ajudou a iniciar – e mais uma turma de rap e hip-hop também.

Qual o tipo de dança que o grupo Balé de Rua trabalha?

Eu tenho o prazer de te contar que o que a gente dança hoje é uma identidade própria nossa – que era nosso objetivo quando começamos a ideia da companhia. Então, através de pesquisa, e com nossa trajetória, a gente dança o estilo ‘Balé de Rua’.

Mariana Aydar faz show de novo álbum em Londres

Mariana Aydar

Mariana Aydar

Parte da nova geração de música brasileira, a jovem paulistana Mariana Aydar traz o trabalho “Peixes, Pássaros, Pessoas” aos palcos do Guanabara na terça-feira, 19, com ingressos antecipados a 7 libras (www.wegottickets.com).Acostumada com camarim, backstage, ensaios, estúdios desde sua infância, Mariana sempre transitou pelos bastidores do mundo da música ao lado da mãe-produtora Bia Aydar e do pai-músico Mário Manga.

Aos 29 anos, lançando seu segundo álbum, ela já é apontada como uma das promessas de sua geração e falou ao Brazilian News sobre sua carreira, a expectativa do show em Londres e a influência positiva da internet na música hoje em dia.

Sua família teve alguma influência na escolha da sua profissão?

Mariana Aydar: Não teve influência alguma, porém desde pequena eu sempre convivi muito com música por causa dos meus pais. Acho que essa foi a principal influência, mas eles me deixam muito livre e não opinam em nada na minha carreira. Claro que é um fator bastante importante, mas acho que tudo aconteceu de uma maneira bastante positiva para mim. Eu aprendi muito observando e convivendo com artistas, o que me deu mais segurança talvez. Ser músico é natural para mim.

Você teria alguém que tenha sido um tutor no desenvolvimento de sua carreira?

MA: Acho que não. Todos que eu tive a oportunidade de dividir o palco, cantando, fazendo parceria, acabou me ensinando algo. Todas essas experiências com outros músicos, que tem mais vivencia que você, é um grande aprendizado.

Como está a expectativa para o show em Londres?

MA: Muito bom! Adoro Londres! Já fui umas três vezes para a cidade. Quando morei em Paris eu visitava Londres. Mas esse show, na realidade, é a estréia do disco novo na Europa, o que aumenta a expectativa. Neste segundo álbum “Peixes, Pássaros, Pessoas” têm 13 músicas inéditas, três composições minhas e as outras são de compositores de uma nova geração, que eu acredito muito na força deste pessoal. Então, eu considero esse trabalho bem autoral e espero que o público goste, pois eu estou bem feliz de ter a oportunidade de mostrar tudo isso.

Musicalmente, tem alguma diferença entre novo disco e seu primeiro trabalho?

MA: Creio que houve um amadurecimento natural. Meu primeiro trabalho foi muito bem aceito, tanto de crítica como de público. E já foi uma grande diferença ter um público meu, um show só meu, pois quando comecei eu cantava forró. Então foi um choque para mim, pois com o primeiro CD eu cantei para públicos bem maiores do que estava acostumada. Eu avalio que com esse trabalho eu consegui passar por experiências importantes, o que me fez amadurecer muito. E eu acho que isso transparece nesse disco novo.

Como você definiria essa nova geração de músico. Você vê alguma ruptura com gerações passadas?

MA: Não ruptura, eu acho que a nova geração agrega. Eu acho que a gente consegue agregar o passado, a tradição que tem na música aqui no Brasil, com o que está acontecendo no mundo globalizado. Nós ouvimos todos os dias novas canções, então eu acho que esta geração faz o esse intercâmbio entre as raízes e a modernidade muito bem!

Qual sua opinião sobre a internet e, principalmente, o YouTube?

MA: Eu acho maravilhoso, pois você tem acesso a qualquer som a qualquer momento. Faz um show hoje e em poucas horas já pode ver tudo, acho que esse é um meio de divulgação muito bom para os músicos!

Da Cruz lança segundo CD com turnê pela Europa

Da Cruz

Da Cruz

O grupo Da Cruz, que tem a frente a brasileira Mariana da Cruz, vem a Londres para lançar seu segundo CD “Corpo Elétrico” na próxima terça-feira, 3, no Guanabara, a partir das 20 horas. Como Seu Jorge, Zuco 103, Bebel Gilberto, Cibelle, Mariana resolveu trilhar o caminho internacional e mora atualmente na Suíça. Aprendendo acordes no coro de uma igreja, Mariana também passou pelos bares de Sampa antes de ir em busca de algo novo que a levou para Lisboa. Da Cruz queria cantar em novos espaços deixar se influênciar por novas e diferentes tendências musicais e culturais. Cantando um show de música brasileira no Bairro Alto (bairro artístico de Lisboa), Mariana conheceu o produtor Suiço Ane. H, membro da banda pioneira da electro-metal, a Swamp Terrorists. Sem esquecer de suas raízes brasileira, começaram a criar seu estilo único entre Bossa Nova, Breakbeats, Jazz, Samba Rock e Electro. Formando uma colisão musical com sua tradicionalidade brasileira. Juntanram-se com o guitarrista Oliver Husmann e o primeiro álbum “Nova Estação“ saiu em 2007. Da Cruz teve a participação entre outros de Duduka da Fonseca, antigo baterista do legendário (Antonio Carlos Jobim). Na América do norte o CD é editado pelo rótulo Six Degrees (Bebel Gilberto, Céu). Pela grande campanha promovida levando Da Cruz para o Top-10 do CMJ Charts. O Brazilian News conversou com Mariana para saber como estão os preparativos para o show em Londres. Brazilian News: Como que está a expectativa para o show em Londres? Mariana da Cruz: Estou super feliz de poder ir para Londres divulgar nosso trabalho e estou com bastante expectativa para o show, estou esperando para ver como tudo vai ser, como é o público londrino, pois esta é nossa primeira vez em Londres. BN: Como está sendo a divulgação do CD? Mariana: A divulgação desse novo CD está sendo feita inicialmente na Europa. Ao todo são 33 países, mas devagarzinho vamos passando por cada um deles. Sem pressa. Claro que vamos ao Brasil também e eu já ouvi que o pessoal lá gostou do CD. Mas ainda não temos datas de todo o tour. BN: Que a diferença de ser musico no Brasil e na Europa? Mariana: O Brasil é um celeiro muito bom de músicos, temos cantores excepcionais. Mas eu vejo que as oportunidades lá são poucas, tenho amigos que trabalham com musica a mais de dez anos e ainda não conseguiram muito sucesso. Então o que me fez sair do Brasil foi a busca por coisas novas, sempre fui muito curiosa e gosto de novas tendências. Esse nicho no Brasil é ainda mais difícil, tem muitos rótulos. Aqui é mais fácil ser livre e criativo sem precisar destes rótulos, o que facilitou o meu trabalho.

Trio Jobim e Milton Nascimento participam do ‘London Jazz Festival’ com repertório de Tom

Divulgacao

Divulgacao

Abrindo com a inigualável “Garota de Ipanema”, cantada em Inglês e Português, o Trio Jobim arrepiou a platéia com sua harmonia, qualidade musical e de arranjos, além, obviamente, do repertório ideal a amantes da Bossa Nova. Composto por Paulo Jobim ao violão, Daniel Jobim ao piano – respectivamente filho e neto do maestro brasileiro –, Paulo Braga na bateria e Rodrigo Braga no baixo, o Trio Jobim ainda é acompanhado pela voz excepcional de Milton Nascimento, que adentra o palco na quarta música da apresentação, entoando “É só tinha que ser com você”.

A turnê nacional e internacional nasceu do disco lançado no início deste ano que reúne músicas de Tom Jobim, Dorival Caymmi e Vinícius de Moraes. Na época, Paulo Braga revelou que Milton era a pessoa ideal para interpretar tal repertório. “O próprio Tom dizia que só o Milton podia cantar suas músicas”, afirmou.

A apresentação, que aconteceu na última quinta-feira, 20, no Royal Festival Hall, como parte da programação do ‘London Jazz Festival’, revelou uma intimidade e química única entre os artistas de gerações diferentes e influências diversas. Milton conversou com a platéia o tempo todo em inglês, sempre brincando com sua limitação em expressar-se na língua. No decorrer do show, que durou uma hora e meia, 15 músicas foram cantadas. Os destaques foram “Brigas Nunca Mais”, “Chega de Saudades”, “Eu Sei Que Vou te Amar”, “Samba do Avião”, sem falar no bis com – como em qualquer apresentação de Milton – “Maria, Maria”.

Umas das faixas do disco, “Dias Azuis” é uma composição de Daniel Jobim, cantada em duo com Milton. “Eles ouviram por acaso e gostaram, mas se eu estivesse lá, não teria deixado entrar no disco”, brincou Daniel. Usando o chapéu que pertencia a seu avô, além de posicionar-se no palco também em seu local – em frente ao piano –, Daniel cantou magistralmente em Inglês a canção “Águas de Março”, deixando escapar ao final da toada uma confissão, “Não tinha certeza se conseguiria cantar até o final”, e um sorriso.

Milton Nascimento ainda afirmou a imprensa carioca pouco antes de começar a turnê deste disco que não sabe quanto tempo tem de carreira, mas que é possível que a parceria renda novos discos e turnês. É esperar para conferir!

‘Blindness’ – Ensaio sobre a Cegueira – estréia com expectativa no Reino Unido

Divulgacao

Divulgacao

Na próxima sexta-feira, 21, entra em cartaz em todos os cinemas do Reino Unido o filme ‘Blindness’, que tem o mesmo título original em Português do livro em que é baseado, ‘Ensaio sobre a Cegueira’, obra homônima do escritor português José Saramago. Com direção do brasileiro Fernando Meirelles, reconhecido internacionalmente pelos trabalhos anteriores em “O Fiel Jardineiro” e “Cidade de Deus”, transporta para o cinema uma das mais aclamadas obras do único escritor de língua Portuguesa ganhador de um Prêmio Nobel.

Uma cidade grande é devastada por uma epidemia instantânea de ‘cegueira branca’. Face ao misterioso surto, os primeiros indivíduos a serem infectados são colocados em quarentena, num hospital abandonado pelas autoridades governamentais. A cada dia, aparecem mais pacientes e, aos poucos, a recém-criada ‘sociedade de cegos’ entra em colapso. Os cegos são, no fundo, seres humanos capazes de roubar, estuprar, cometer violência, etc.

Porém, há uma testemunha ocular a este pesadelo: uma mulher, cuja visão não foi afetada por esta praga, que acompanhou o marido cego para o asilo. Assim, mantendo em segredo seu trunfo, convivendo e vendo os problemas em que todos estão afundando, ela sente-se responsável, culpada e incapaz de continuar a jornada que está destinada. Através de conflitos e afeições que se desenvolvem durante o filme, ela passa a tomar conta de outros sete personagens que se tornam, em essência, uma família.

Filmado em Toronto, São Paulo e Montevidéu, cenas belíssimas compõem o cenário esdrúxulo em que todo o mundo se transforma pela incapacidade de ver. Caos, lixo, sujeira, desprezo, tristeza, solidão são fatos e sentimentos que se misturam e completam a mensagem que Saramago exibe em suas páginas tão magistralmente e Meirelles sofre com a dificuldade de mostrar através de imagens a cegueira.

Mas o resultado é impressionante e, com certa, digno das lágrimas derramadas por Saramago após assistir o filme pela primeira vez. “Fernando, estou tão feliz por ter visto este filme como estava quando acabei de escrever este livro”, revelou o escritor, após enxugar lágrimas que não paravam de descer-lhe pelo rosto. “É mesmo: O senhor não sabe como me deixa feliz também!”, exclamou Meirelles beijando a testa de Saramago.

O Brazilian News conversou exclusivamente com o diretor Fernando Meirelles e também participou de uma mesa com outros jornalistas com o escritor canadense Don McKellar, que além de assinar o roteiro, interpreta o ‘Bom Samaritano/Ladrão’ no filme.

Entrevista exclusiva com Fernando Meirelles

Brazilian News: Qual aspecto do livro do Saramago teve que ser modificado para poder escrever o roteiro e criar a trama cinematográfica da história de “Ensaio sobre a Cegueira”?

Fernando Meirelles: A maior diferença é o desenvolvimento dos personagens. No livro eles começam e acabam praticamente iguais, no filme sempre tem um conflito entre os casais, então eles começam de um jeito e depois daquela experiência, quando o filme termina, eles estão transformados. Mas acho que isso é pela necessidade de movimento do filme, pois no livro eu não senti falta. Mas no filme a gente sentiu falta de ter mais movimento emocional e psicológico dos personagens. De resto a trama é muito similar.

BN: Como foi o desenvolvimento da linguagem visual do filme. Há vários momentos em que a imagem está bastante clara, ou distorcida, com muita luz. Isso foi uma escolha sua?

Meirelles: Sim, pois a gente precisava representar a cegueira com imagem, o que é difícil. Então o que eu e o Cesar Charlone [Diretor de Fotografia] tentamos fazer foi criar vários truques pra tirar um pouco a confiabilidade ou a importância das imagens. Então, tem muitos momentos que a imagem está fora de foco, ou você vê apenas um reflexo, ou o reflexo do reflexo, um enquadramento muito errado, torto, e também usamos este truque de deixar a imagem muito branca, porque a cegueira da qual a gente está falando as pessoas não enxergam as escuras, elas enxergam tudo branco, como se estivessem num mar de leite como é descrito no filme. Em vários momentos realmente você não consegue ver a imagem de tão branca que ela está e tudo isso, de certa forma, ajuda a por o expectador neste mundo da cegueira, ou seja, num mundo no qual você não pode confiar muito na imagem porque ela não te diz muito. Ela é meio torta, meio errada.

BN: Anos atrás você havia tentado fazer este mesmo filme. Como foi receber o convite para dirigir o “Blindness”?

Meirelles: Pois é, foi uma surpresa! Pois eu quis comprar os direitos do livro em 1997 e o Saramago não vendeu. Um dia eu recebi um telefonema deste produtor canadense me oferecendo a direção, perguntando se eu conhecia essa história, se eu tinha interesse em ler. E eu respondi que não só conhecia como já tinha tentado comprar a história. Daí ele me enviou o roteiro, foi para São Paulo uns três dias depois, conversamos e aqui estou eu. Entrei no projeto e agora estamos lançando o filme.

BN: Como você descreveria a experiência de ter trabalhado com um elenco que tem nomes como Julianne Moore, Danny Glover e Gael Garcia Bernal?

Meirelles: Na realidade é um ‘casting’ pesado em nome, mas de uma leveza para o trabalho impressionante. A Julianne Moore é extremamente generosa, fácil de lidar, comprometida com o trabalho. Todos os dias ela chegava no ‘set’ cheia de idéias e com vontade de trabalhar.

Para falar a verdade, acho que esta foi a experiência de filmagem mais agradável que eu tive, pois o elenco ficou tão unido, ficou tão amigo, a gente dava tanta risada juntos. O período das filmagens foi muito gostoso, muito bom, muito pela integração da equipe. Pois trabalhando numa historia tão sombria, foi curioso de ter tido uma experiência tão agradável na realização.

BN: O filme recebeu críticas em Cannes, após a primeira apresentação. Depois disso algumas modificações foram feitas. As críticas influenciaram nessa decisão?

Meirelles: O filme recebeu crítica, mas a gente nem mudou muito em função das críticas. Talvez um pouco, mas principalmente porque o filme não estava acabado. Nós corremos muito para ter o filme pronto e conseguir apresentar em Cannes, e não tivemos tempo nem de checar a cópia. Nós só checamos na projeção com mil pessoas já em Cannes. Então, saindo do festival fomos acabar direito o filme, demos um tempo e repensamos algumas coisas e tal. Aí, eu recoloquei algumas cenas que eu tinha tirado no início, tirei algumas narrações que tinha colocado e achei melhor ficar sem elas. Com isso, acho que o filme ficou no tom certo, vamos ver o que vai acontecer. No Brasil o filme foi lançado há oito semanas e está indo extremamente bem, contabilizando 800 mil expectadores, o que no Brasil é um ótimo resultado. No México eu soube que está muito bem também. Está saindo no Japão, Portugal e aqui [Reino Unido], dia 21.

BN: Eu conversei com o escritor Don McKellar anteriormente sobre a internacionalização dos personagens, utilização de várias línguas e não identificação de uma cidade específica. Mas o livro do Saramago transparece certa particularidade, ou mesmo em função da narrativa dele.

Meirelles: Porque é muito português você diz?

BN: Você não sente isso?

Meirelles: Eu quando li o livro, eu sempre imaginava que aquela história, aquele lugar era meio Lisboa nos anos 40 ou 50. Eu li o livro com essa imagem. Mas no filme a gente não queria fazer isso, pois se a gente faz algo assim, as pessoas iriam achar que é uma história sobre Portugal, sobre a época do Salazar, entre outras leituras. Então a idéia foi colocar num local não identificado. Eu filmei muito em São Paulo, mas a gente nunca diz que é São Paulo, as placas são em inglês. É uma cidade grande, genérica, que pode ser qualquer lugar. Intencionalmente eu tirei de Portugal, ou dos Estados Unidos, ou do Canadá. Deixei o filme mais aberto, mais genérico.

BN: Como você lidou com as críticas negativas, principalmente a americana?

Meirelles: Eu soube das críticas, evidentemente, mas eu fui aconselhado a não ler as críticas. Me falaram ‘Vai ficar lendo? Para quê? Só vai te aborrecer e não vai ajudar em nada…’. Então eu não li. Claro que eu preferiria que só tivesse havido críticas boas. Houve algumas boas. O ‘The Guardian’, por exemplo, já que estamos aqui na Inglaterra, publicou uma crítica ótima. Classificou o filme como quatro estrelas, em quatro. Teve também críticas duras, mas eu entendo por que é uma história difícil. Eu não esperava mesmo que fosse um filme que emplacasse de ponta a ponta. Os americanos acham o filme violento demais, o que é curioso vindo de um país que invade os outros, entra em guerra a cada dois anos, que tem esse presidente, acha esse filme violento. Mas eu aceito totalmente a opinião dos outros, eu sou um democrata.

BN: Como foi a reação do Saramago que estava sentado ao seu lado no momento da exibição?

Meirelles: Você consegue ver isso no You Tube, está lá a reação dele. É indescritível!

Don McKellar fala sobre Meirelles

BN: Qual o principal motivo por vocês terem escolhido Fernando Meirelles para dirigir este filme?

Don McKellar: Quando fomos falar com o Saramago ele nos perguntou qual o motivo que a gente queria fazer um filme sobre a cegueira, tendo em vista que o cinema é uma arte visual e obviamente a cegueira é o contrário disso. A gente sempre soube disso, mas isso me fez pensar ainda mais em como deveríamos tratar o problema para que a essência do livro que é tão bela não se perdesse nas telas. Assim, nós sabíamos que precisávamos de um diretor que estivesse pronto para esse desafio. A visualização é essencial e é o centro da história para o filme. Não é algo óbvio ou apenas uma cobertura do filme, mas sim fundamental para o filme, como ele seria visto e entendido. Então, nós teríamos que escolher alguém que fosse possível se adaptar a esta situação, alguém que conseguisse imaginar o filme ao ler o ‘script’. Quando Fernando leu, ele disse que aquilo fazia sentido a ele, e era isso que estávamos buscando.

BN: Como ator, como foi trabalhar com Meirelles?

Don McKellar: Fantástico! Eu tenho certeza que todos os atores concordam que é uma alegria e satisfação trabalhar com Meirelles. Todos o amam! No momento em que você o conhece ele é tão charmoso e gracioso a tão humilde que chega até a chocar! Ele realmente nos inspira a todos a dar o melhor de si, de se envolver no projeto de corpo e alma. Quando eu terminei o roteiro e vim a saber que estaria atuando no filme, eu me preparei psicologicamente para agüentar a experiência que imagina vir a ser a mais dolorosa. E não foi! Foi um prazer surpreendente. Todos os atores ficaram bastante surpresos. Eu me lembro, um dia no ‘set’, após as filmagens das cenas de estupro, duas mulheres que passaram os últimos dias em condições muito aquém das ideais, quando terminou a cena foram até o Fernando e o agradeceram, e ele “Porque você está me agradecendo?”. Eu nunca estive num ‘set’ onde todos estavam unidos, sem esse tipo de hierarquia e tal. E isso é por causa do Fernando, sua maneira de trabalhar.