Ídolo de Portugal, Deco revela que deseja voltar a morar no Brasil

(Reportagem publicada na revista Brasileiros em Julho 2009)

divulgacao

O jogador brasileiro Anderson Luis de Souza, ídolo de Portugal e atual meia do time inglês Chelsea, abriu as portas de sua casa no bairro de Fulham para um papo descontraído com a Brasileiros. Vestindo jeans e camiseta, após sua sessão diária de fisioterapia, Deco – como é internacionalmente conhecido – contou passagens marcantes de sua vida e carreira, como sua vinda para Europa, seu recém inaugurado Instituto Deco20, amigos, família e, é claro, futebol, inclusive sobre a controversa demissão do técnico Luis Felipe Scolari!

Com a maturidade de seus 31 anos, sua voz mansa e suave revela que, por detrás de um jogador considerado ‘nervosinho’, é uma pessoa simples e que planeja um futuro não muito distante de sua terra natal, que sempre cita com olhos mareados. Craque desde a adolescência, ele deixou muito cedo o Brasil e conquistou seu espaço da constelação do futebol jogando pelo time do Porto, em Portugal, onde morou por oito anos. Passou também pela Espanha e Inglaterra e, como milhares de imigrantes que deixam sua pátria por uma oportunidade melhor, Deco admite que o desejo de voltar a viver perto da família e amigos está mais presente do que nunca.

De onde vem o apelido Deco?

Deco: Na realidade eu nem sei exatamente. Um tio meu começou a me chamar assim porque minha mãe não gostava. Eu era bem pequeno, tinha meses, era um apelido para irritar a minha mãe e acabou ficando.

Por que você tomou a decisão de sair do Brasil e vir morar na Europa?

Deco: Eu estava com 17 anos quando vim para a Europa, eu estava no Corinthians. Na época, a empresa que era dona do meu passe veio com essa proposta de me trazer para Portugal e eu até não queria muito… Eu achava que era muito novo ainda, mas eles pressionaram um pouco e eu acabei tento que vir. O primeiro ano, logo que cheguei, foi complicado, mas depois foi tranqüilo, fui me adaptando.

Qual foi o maior obstáculo quando veio morar em Portugal?

Deco: Acho que o maior obstáculo foi porque eu era muito novo. Vim sozinho, sem meus pais, pois meu pai tinha que trabalhar também. Depois as dificuldades de adaptação. Primeiro porque eu vim achando que vinha para um clube e acabei indo para outro. Mas eu considero que a idade foi o que mais pesou para mim nessa mudança de país.

Você passou por alguma situação engraçada de imigrante chegando num país novo?

Deco: Têm várias! Assim que eu cheguei em Portugal, até foi a primeira vez que eu sai do Brasil. O mais engraçado foi que, na época, eu achava que eu ia para o clube Benfica. Tinha um jogador que era conhecido no Brasil, o Paulo Nunes, que veio para o Benfica e ele foi a contratação do ano.

A vinda dele coincidiu com a minha e a de um amigo meu, que viajamos juntos, no mesmo vôo que o Paulo Nunes. Até mesmo o empresário também tinha nos dito que nós iríamos para o Benfica. Então, quando a gente chegou no aeroporto estava toda a imprensa esperando, fãs e tudo o mais. Mas era para esperar o Paulo Nunes e não para a gente!

Nós fomos apresentados a um dos Diretores do Alverca, o clube que então jogaríamos, da segunda divisão, fora de Lisboa. Aí quando começamos a jornada para o clube, comecei a ver as placas passando, eu não acreditava! A gente achava que ia para o Benfica e no final não foi nada disso.

Na época foi complicado, mas agora é um episodio engraçado de lembrar!

O que você sente mais falta do tempo que morou em Portugal?

Deco: Eu sai faz cinco anos já. Cheguei a ficar um ano nessa cidade próxima a Lisboa. Mas eu tenho saudades mesmo da época do Porto. Morei sete anos no Porto, sendo que seis anos e meio joguei pelo Porto e os outros seis meses foram num time pequeno chamado Salgueiro. Destes anos todos que eu passei no Porto eu fiz muitos amigos, que eu visito ainda hoje.

Eu sempre gostei de sair para comer e lá há restaurantes bem pequenos, de amigos mesmo, que nem turistas chegam. Então, sempre volto! De uma maneira geral foi um tempo muito feliz, jogando no Porto, pois o clube tem um jeito diferente. Os jogadores que passaram por lá se tornam membros de uma grande família, a relação com a diretoria, o próprio presidente esta lá há 30 anos. Essa amizade é muito difícil ter nos clubes grandes. Fui muito feliz lá e só sai porque queria conquistar outras coisas, alcançar outros objetivos.

Foi em Portugal que você realmente conseguiu brilhar como profissional. Primeiro no Benfica, depois Porto.

Deco: Eu sai do Brasil muito cedo e, normalmente, com 17 anos os jogadores estão começando. A maioria dos jogadores faz sucesso no Brasil e depois vem para a Europa, eu fiz o contrário. Eu vim desconhecido e acabei tendo sucesso aqui e acabei sendo reconhecido no Brasil pelo o que eu fiz na Europa.

Desde os primeiros anos no Porto eu já comecei a me destacar e as coisas começaram e ir bem, tive várias propostas de outros times grandes, mas eu nunca quis sair do Porto sem tem feito alguma coisa importante, sem ter conquistado algo para o clube. O Porto é um time grande em Portugal, mas na Europa é considerado um time de médio porte, sem muito poder financeiro o que impede a contratação de jogadores famosos. Então acho que teve ainda mais mérito da equipe vencer uma Liga dos Campeões, como nós fizemos.

Vários clubes da Itália e Inglaterra estavam de olho para comprar seu ‘passe’, mas sua opção foi pelo Barcelona. O que influenciou essa decisão de ir para a Espanha?

Deco: Na verdade, o Barcelona sempre foi o time que eu quis jogar, meu time dos sonhos que desde pequeno eu assistia aos jogos. Eu até deixei de aceitar outras propostas, pois eu esperava que o Barça me chamasse, como aconteceu. Aliás, eles até propuseram um ano antes da minha eventual saída, mas o Porto quis que eu ficasse e acabei adiando por mais um ano até mudar para o Barcelona. E foi legal, foi realizar o meu sonho, jogando no clube que eu queria e ainda conquistar todos os títulos e vitórias foi realmente fantástico!

No ano passado o Brasil venceu a seleção Portuguesa num amistoso. Como é jogar contra o Brasil para você?

Deco: Nós já havíamos jogado outras duas vezes e Portugal havia ganhado. Os dois jogos foram amistosos, nunca houve jogo oficial. Nesse último acabou que perdemos de 6 a 2.

Como das outras vezes que joguei contra o Brasil e a sensação sempre é um pouco estranha.

Desta vez, jogando no Brasil, foi ainda mais estranho. Por ser brasileiro, é o país onde eu nasci e cresci, onde está a minha família e amigos, aonde vou sempre, onde desenvolvo vários projetos; mas, por outro lado, Portugal é o país onde eu conquistei tudo, o país que me acolheu e que serei eternamente grato por tudo que aconteceu em minha vida que Portugal proporcionou. Óbvio que quando começa o jogo você acaba esquecendo um pouco isso, mas é difícil ignorar por se tratar de um jogo contra o Brasil. Foram jogos muito especiais para mim, apesar da estranheza.

Qual a relação entre você e os jogadores brasileiros, como por exemplo, o Ronaldinho Gaúcho, que foi seu companheiro de equipe?

Deco: Nós somos amigos. Eu e o Gaúcho jogamos quatro anos juntos, até hoje nos falamos, tenho um carinho grande por ele. E não só com ele, já joguei com muitos outros brasileiros como Beletti, Delei, Carlos Alberto, Jardel… E todos são meus amigos. É normal também a gente acabar se relacionando mais quando estamos num clube no exterior.

A conquista de um passaporte europeu é um sonho para qualquer imigrante. Para um atleta como se processa a dicotomia de defender a seleção do país que te acolheu, e não a pátria?

Deco: A questão do passaporte é bem mais simples, pois eu teria direito em função do tempo que vivi em Portugal e por descendência de família. Então isso eu já teria direito independente ou não de jogar pela seleção.

Entrar na seleção foi um evento que aconteceu a parte. Desde os primeiros anos que eu estava no país já me pediam para jogar, inclusive o presidente da federação. Algum tempo depois houve uma campanha muito grande das pessoas, dos jornais, para que eu jogasse pela seleção Portuguesa. E foi isso que acabou me comovendo de um jeito que pesou para tomar essa decisão, além do tempo que eu já estava no país e por me identificar e gostar do país. Então, a decisão de jogar pela seleção, foi diferente da questão do passaporte. Não foi fácil decidir, pois não foi o sonho de jogar pela seleção brasileira que deixou de existir. O que aconteceu foi que a minha vida tomou rumos diferentes daqueles que eu imaginava. Vim para um país que me sentia em casa, feliz, e onde as pessoas pediam para eu defender o país deles – o que foi muito forte.

E o processo de naturalização? Você detém duas nacionalidades?

Deco: Sim, eu não deixei de ser brasileiro por me naturalizar português. Uma coisa não tem nada haver com a outra. E é algo normal, tanta gente tem uma segunda nacionalidade no Brasil. Para mim, é o que acabei de falar, foi ótimo que muita gente em Portugal me apoiou, mas no final foi uma decisão pessoal que eu mesmo tive que tomar.

Esta é a sua primeira temporada na Inglaterra. O que foi mais difícil para se adaptar aqui: língua, comida, clima, etc? O que mais mexeu com você?

Deco: Eu considero que o clima é mais complicado. Em Portugal e na Espanha eu não tive esse problema. Aqui o inverno foi bastante difícil para mim, mas dá para levar, dá para encarar! Mas acho que o que mais está me afetando este ano está sendo os problemas com minhas lesões. Eu comecei muito bem o campeonato e de repente tive um problema que não consegui me recuperar tão bem. Tirando os dois primeiros meses da temporada, estou praticamente todo este ano entre recuperações e não jogando cem por cento. Eu ainda estou machucado e isso está sendo muito difícil de enfrentar, o que não tem nada haver com o país em que estou. É uma etapa em minha carreira que, infelizmente, coincidiu com a vinda para o Chelsea.

Como faz para administrar esses problemas das lesões?

Deco: Eu tenho mais dois anos de contrato aqui. Não tem como prever o que irá acontecer, mas se seguir o que está previsto eu estarei com o Chelsea por mais duas temporadas. Neste momento, minha maior preocupação é conseguir recuperar fisicamente e me preparar para a próxima temporada. Não adianta falar em muitos detalhes, mas eu tive três vezes um problema na parte posterior da perna esquerda e, mais recentemente, uma lesão no quadril. Nada muito grave, porém me fez parar 20 dias, depois mais um mês, e assim vai. Mas pretendo me recuperar bem e não começar a próxima temporada lesionado. Esse é o meu principal objetivo: voltar a jogar sem problemas.

A sua posição é bastante concorrida no Chelsea, com Ballack, Lampard e Essien. Você avalia que em outra equipe talvez você conseguisse jogar mais e fosse melhor para sua carreira?

Deco: Apesar dessa competição eu sempre joguei aqui. Essa concorrência nunca foi um problema para mim, até porque eu já sabia antes de vir para cá. No Barcelona também havia essa disputa e eu sempre estava jogando. Então, desde que eu me sinta bem, eu sei que tenho condições de jogar aqui ou em qualquer outro lugar. O que prejudicou foram as lesões que me colocaram fora de campo. Isso também acaba por mexer no meu psicológico, pois além de não estar bem fisicamente acabo ficando desconfiado, pensando se terei outro problema, joguei muitas vezes com dor. Na fase final da temporada foi realmente quase impossível jogar tanto quanto eu gostaria.

Apesar de ter mais dois anos de contrato com o Chelsea. Você já comentou que desejaria voltar a jogar no Brasil, talvez até no Corinthians. São estes seus planos para futuro?

Deco: Acredito que ficarei na Europa nesse período que cobre meu contrato, o que dificulta voltar antes de 2012. O que eu posso dizer é que eu só voltaria para o Brasil se eu pudesse fazer alguma coisa, se continuar jogando bem, não só jogar para acabar a carreira lá. Eu gostaria de ainda estar em condições físicas de ainda conquistar algo, se esse for o caso de eu decidir voltar mesmo. Se eu me sentir assim, com certeza gostaria de voltar a jogar no Brasil. E, uma escolha, seria o Corinthians por ser o time que eu sempre sonhei jogar quando era pequeno. Por ter saído cedo do país nunca tive a oportunidade de passar pelo time. Então, caso esses fatores estejam em harmonia e o Corinthians estiver com um projeto sério e que me permita contribuir, seria ideal. Mas não penso nisso agora, vamos ver, não sei… Com certeza é uma vontade, um desejo!

Com qual idade você pensa em parar de jogar?

Deco: Eu pretendo continuar jogando até quando eu me sentir bem, pois quero deixar o futebol com essa imagem boa que construí durante minha carreira, sem ter que me arrastar em campo e não me sentir mais em condições de jogar. Nesse momento, em que eu não tiver mais condições físicas, eu penduro as chuteiras. Deixo que outros mais novos virão.

Você acha que vai sentir falta da Inglaterra? Se sim, do que exatamente?

Deco: Todo lugar que você vai sempre tem muita coisa para aprender. A Inglaterra é um país excelente, Londres é uma cidade fantástica! Para nós é uma cultura diferente, que nós devemos aproveitar o que é bom. Eu acho que a organização deles é impressionante, sobre tudo, até no futebol. Um reflexo disso é o sucesso dos times ingleses nos campeonatos europeus. A maneira de trabalhar, os métodos bem mais precisos, então eu acho que essa qualidade dos ingleses nós devemos tentar incorporar ao máximo. As coisas aqui realmente funcionam, as leis são cumpridas, e nós não estamos acostumados a essa rigidez. Eu admiro muito isso.

A seleção Portuguesa está enfrentando problemas para a classificação para Copa do Mundo de 2010. Os portugueses e jogadores estão sentindo a falta do Felipão no comando do time?

Deco: O Felipão deixou uma história muito positiva na seleção. Ele conseguiu que Portugal alcançasse bons resultados formando uma seleção forte. Mas a saída dele coincidiu também com uma nova geração, com novos jogadores. Por si só essa mudança já é difícil e, é claro que, com a saída ficou aquela lembrança boa dele. Por tudo aquilo que ele fez. Mas não acho que esse seja o motivo das dificuldades da seleção. Eu acho que o treinador atual, Carlo Queiroz, é muito bom. Trabalhar com uma seleção tem suas dificuldades, pois é comum que com apenas quatro dias de treino já temos que jogar e quando entram jogadores novos, que ainda não estão adaptados ao ritmo do time, os resultados acabam não sendo os melhores. A classificação não está sendo fácil, ainda temos quatro jogos e, praticamente, temos que ganhar todos – o que não é impossível – e eu acredito que com a qualidade e vontade de todos os jogadores nós vamos alcançar a classificação.

Em sua opinião, o que não deu certo para o Felipão no Chelsea?

Deco: Eu não diria que não deu certo. O Chelsea é um clube um pouco especial, não tão tradicional quanto outros times ingleses onde o treinador tem mais tempo, onde desenvolvem um trabalho independente dos resultados. No Chelsea, a diretoria é obcecada pela Liga dos Campeões e tem um dono que quer ganhar a Liga. Já gastaram muito dinheiro e até hoje ainda não conseguiram o título. Como o time não estava indo muito bem, com perigo de não passar nas fases iniciais, havia uma pressão muito grande, maior ainda sob o técnico, do que os jogadores. Somando boatos sobre mau relacionamento entre o Felipão e jogadores, coisa que eu nunca vi e nem que isso existisse, mas acabou por criar uma situação desconfortável. Mas acho que a decisão mesmo foi em função dos resultados. Ao contrário do que acontece em outros times na Inglaterra, o Chelsea, pressionado pelos resultados, acabou tomando a decisão de mudar de treinador.

Você sente essa pressão como jogador do Chelsea?

Deco: Para quem jogou no Barcelona, acho que é algo semelhante, ou até tem muito mais pressão na Espanha. Lá tem uma pressão diária da imprensa, pois existem três jornais que só falam do Barcelona, televisões e dezenas de programas de rádio. É uma cidade que vive o clube. Tudo que acontece no time, as conversar são sobre o time, os jogadores, etc, e em Londres o Chelsea não é o único time. Não existe aqui uma imprensa só de esportes como existe na Espanha. Então, acho que a pressão sob os jogadores é maior na Espanha do que aqui.

A pressão no Chelsea é mais interna mesmo, a diretoria e o dono que tem esse desejo de conquistar a Liga dos Campões, pois quando os resultados não são bons o técnico que sofre mais e arca com a responsabilidade.

Você acha isso justo?

Deco: No futebol não tem justiça. No futebol o que conta são resultados. Você vale hoje o que você está fazendo. Acho que é a única profissão do mundo que o que hoje é verdade amanha não é mais. Tudo acontece muito mais depressa do qualquer outra profissão. Por exemplo, um jogador que tem dez anos de carreira, ele conheceu muito mais gente do que passar dez anos numa empresa. No futebol é tudo muito rápido, as mudanças são mais rápidas. Quatro anos num clube parecem dez anos em qualquer outro lugar pela quantidade de mudanças.

Este último ano que passei no Chelsea mesmo, passou muito rápido! Entre momentos em que esta jogando, não estava jogando, estava no melhor momento e em seguida estava sendo criticado… Isso num espaço muito curto de tempo. De um jogo para outro você não muda, mas a opinião sobre você pode mudar.

Então, é muito complicado dizer o que é justiça no futebol, ainda mais hoje com o mundo todo assistindo o jogo ao vivo. Pressão da imprensa, dos jogadores, é uma roda viva onde nada é justo. Se funciona ótimo, se não funciona troca por outro.

O que você pensa sobre essas últimas contratações milionárias que os times europeus têm feito, como aconteceu com o Kaká e o Cristiano Ronaldo?

Deco: Eu acho que faz parte do desenvolvimento do próprio esporte. Cada vez tem mais dinheiro no futebol. Daí, os jogadores acabam valendo aquilo que os times tem para investir. Então, os jogadores que tem contrato assinado por muitos anos, jogadores importantes como eles, que garantem o retorno do investimento, acabam sendo comprados por esses valores… Acho que futebol é isso mesmo e não tem como controlar. O normal é que continue assim. Não sei se esse valor será ultrapassado nos próximos anos ou não, mas é o mercado do futebol. Com certeza vai ficar mais e mais concorrido.

Qual jogador que você mais admira no futebol mundial?

Deco: Quando eu era pequeno eu era fã de alguns, admirava e queria ser igual. Depois quando comecei a ter mais noção do que realmente era o futebol, tem jogadores que eu me identificava, mas o que marcou mais para mim e até hoje somos amigos foi o Djalminha. Eu tinha 14 anos e ia vê-lo jogar no Palmeiras, mesmo sendo corintianos, porque eu o admirava. Acabei jogando contra ele várias vezes quando eu estava no Porto. Ele foi o jogador que eu me inspirou e eu adorava vê-lo jogar. Hoje em dia, quem eu gosto de ver é o Messi, que é fantástico. Acho que depois do Gaúcho, foi o jogador que mais me deu prazer jogar junto, que é bonito de assistir.

E técnicos?

Deco: Têm vários. Alguns que eu aprendi mais com o técnico que eu tive no Porto, Fernando Santos, que me ajudou bastante. Mas eu tive a sorte de ter trabalhado com dois dos maiores treinadores do mundo que são o Felipão e o Mourinho. Cada um em seu estilo, mas ambos uma experiência ótima! E continuo admirando o trabalho deles independente de não estar mais trabalhando com eles.

Com o Mourinho conquistamos títulos importantes no Porto e foi considerado o melhor treinador do mundo por um bom tempo. Mas também foi o que eu disse, isso é relativo e sendo melhor ou não, eu respeito e admiro muito ele. E o Felipão também, da mesma maneira!

Há anos fora do Brasil, como você lida com a distância e saudade da família e amigos?

Deco: A minha vontade de voltar para o Brasil é por duas razões. A primeira é realmente a família e amigos que eu tenho. Mesmo depois de tanto tempo longe, lá é o local onde eu me sinto em casa e não me sinto estranho, sinto bem. E isso é difícil, pois eu já morei em vários lugares e nem sempre conseguimos nos sentir bem no local onde moramos.

No Porto, eu consigo me sentir em casa também, mas não é como no Brasil. Apesar de já estar 17 anos fora, entre todos os países que já passei, as cidades onde já vive, o Brasil é onde está minha família e amigos mais próximos. Parece lógico que quanto mais anos fora, mais adaptado você está em morar fora, mas nem sempre é assim. Eu continuo sentindo saudades.

O final do ano passado, você inaugurou o Instituto Deco 20, em Indaiatuba, SP. De onde surgiu a idéia de montar um instituto para ajudar na formação de crianças, como este?

Deco: Há muitos anos, desde que comecei a ter mais recursos, sempre tive esta vontade de retribuir de alguma forma ajudando outras pessoas. E eu vinha ajudando algumas instituições que realizavam trabalhos fantásticos com crianças de baixa renda. No Brasil, infelizmente, o horário escolar é complicado, só de manhã ou só a tarde. Então, essas entidades auxiliavam para deixar as crianças mais ocupadas, com reforços e outros cursos, principalmente em bairros complicados onde há tráfico de droga. Mas nem sempre eles conseguiam continuar o trabalho e tinham ainda certas dificuldades em manter as crianças no programa. Daí, eu comecei a ajudar contratando professores, procurando mais espaços e foi quando surgiu a idéia de um local maior que abrangesse mais crianças e tivesse outras opções também. Começamos contatando as prefeituras, porém os locais cedidos nunca eram suficientes.

Como eu tinha um terreno, decidi, com meu pai, construir o instituto. Isso foi há cinco anos. Até a idéia avançar, encontrar as pessoas para trabalhar no projeto levou um tempo. Hoje já estamos funcionando e ajudamos cerca de 300 crianças desenvolvendo um trabalho fantástico com esportes, música, dança, teatro, além do reforço escolar.

Era um sonho meu, retribuir o que a vida me deu, e optei por começar na minha cidade mesmo, no local onde eu convivo e que eu vejo que tem muito problemas sociais. Nossa idéia é trabalhar não só as crianças, mas ajudar na estrutura das famílias, buscando a participação dos pais. Está sendo fantástico mesmo ver o desenvolvimento dessas crianças! Quando eu estou no Brasil eu passou muito tempo no Instituto. Eu gosto de ver o quanto eles aprenderam e estão crescendo. E eles ficam muito alegres quando eu chego também. É muito gostoso, ver a alegria deles é o mais gratificante!

Poucas semanas atrás você celebrou seu terceiro casamento, em Indaiatuba, SP. Você e a Ana Paula Shiavetti (30 anos) estão esperando seu primeiro filho juntos, certo?

Deco: Sim, eu e a Ana Paula estamos esperando nosso primeiro filho que vai se chamar Sofia. De outros dois casamentos anteriores eu tenho mais quatro filhos, o Pedro e o João, e a Yasmin e o David Luiz. Eu e a Ana nos conhecemos em Barcelona e estamos juntos há dois anos. Então, no último dia 28, nos casamos numa cerimônia simples reunindo amigos mais próximos e familiares.

Para encerrar, a última pergunta está sempre na última página da Brasileiros. Você acredita no Brasil?

Deco: Acredito, óbvio! O Brasil tem demonstrado nos últimos anos uma estabilidade que há 15, 20 anos atrás ninguém nem imaginava. Ninguém queria investir no Brasil, o pessoal até queria tirar o dinheiro dos bancos com medo, por insegurança. A inflação era algo assustador, absurdo, os preços mudavam todos os dias.

Hoje, as pessoas já podem se programar. Vejo amigos meus com uma situação financeira bem melhor, comprando casa, conseguindo crédito – algo impensável antes. Mas existem outras coisas que o Brasil tem que melhorar. Eu acho que a Educação ainda é muito falha, e boa Educação ainda está acessível a pouca gente e enquanto continuar assim outras melhorias serão impossíveis.

Mas eu acho que tem muita gente querendo mudar, pessoas querendo fazer algo realmente. Sempre vai ter quem contraria, mas o importante é que nós temos mais gente bem intencionada, gente com qualidade, com imaginação, que tem idéias novas. O Brasil é um país rico com gente que tem essa capacidade de mudança e eu acredito, sim!

2 responses to “Ídolo de Portugal, Deco revela que deseja voltar a morar no Brasil

  1. Amiga, vc sempre tão talentosa! Como estão as coisas por aí? Beijos e saudades!

  2. Paula, poderia entrar em contato comigo pelo breno.pessoa@ef.com? O blog é muito legal, parabéns pelas entrevistas!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s