‘Blindness’ – Ensaio sobre a Cegueira – estréia com expectativa no Reino Unido

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Na próxima sexta-feira, 21, entra em cartaz em todos os cinemas do Reino Unido o filme ‘Blindness’, que tem o mesmo título original em Português do livro em que é baseado, ‘Ensaio sobre a Cegueira’, obra homônima do escritor português José Saramago. Com direção do brasileiro Fernando Meirelles, reconhecido internacionalmente pelos trabalhos anteriores em “O Fiel Jardineiro” e “Cidade de Deus”, transporta para o cinema uma das mais aclamadas obras do único escritor de língua Portuguesa ganhador de um Prêmio Nobel.

Uma cidade grande é devastada por uma epidemia instantânea de ‘cegueira branca’. Face ao misterioso surto, os primeiros indivíduos a serem infectados são colocados em quarentena, num hospital abandonado pelas autoridades governamentais. A cada dia, aparecem mais pacientes e, aos poucos, a recém-criada ‘sociedade de cegos’ entra em colapso. Os cegos são, no fundo, seres humanos capazes de roubar, estuprar, cometer violência, etc.

Porém, há uma testemunha ocular a este pesadelo: uma mulher, cuja visão não foi afetada por esta praga, que acompanhou o marido cego para o asilo. Assim, mantendo em segredo seu trunfo, convivendo e vendo os problemas em que todos estão afundando, ela sente-se responsável, culpada e incapaz de continuar a jornada que está destinada. Através de conflitos e afeições que se desenvolvem durante o filme, ela passa a tomar conta de outros sete personagens que se tornam, em essência, uma família.

Filmado em Toronto, São Paulo e Montevidéu, cenas belíssimas compõem o cenário esdrúxulo em que todo o mundo se transforma pela incapacidade de ver. Caos, lixo, sujeira, desprezo, tristeza, solidão são fatos e sentimentos que se misturam e completam a mensagem que Saramago exibe em suas páginas tão magistralmente e Meirelles sofre com a dificuldade de mostrar através de imagens a cegueira.

Mas o resultado é impressionante e, com certa, digno das lágrimas derramadas por Saramago após assistir o filme pela primeira vez. “Fernando, estou tão feliz por ter visto este filme como estava quando acabei de escrever este livro”, revelou o escritor, após enxugar lágrimas que não paravam de descer-lhe pelo rosto. “É mesmo: O senhor não sabe como me deixa feliz também!”, exclamou Meirelles beijando a testa de Saramago.

O Brazilian News conversou exclusivamente com o diretor Fernando Meirelles e também participou de uma mesa com outros jornalistas com o escritor canadense Don McKellar, que além de assinar o roteiro, interpreta o ‘Bom Samaritano/Ladrão’ no filme.

Entrevista exclusiva com Fernando Meirelles

Brazilian News: Qual aspecto do livro do Saramago teve que ser modificado para poder escrever o roteiro e criar a trama cinematográfica da história de “Ensaio sobre a Cegueira”?

Fernando Meirelles: A maior diferença é o desenvolvimento dos personagens. No livro eles começam e acabam praticamente iguais, no filme sempre tem um conflito entre os casais, então eles começam de um jeito e depois daquela experiência, quando o filme termina, eles estão transformados. Mas acho que isso é pela necessidade de movimento do filme, pois no livro eu não senti falta. Mas no filme a gente sentiu falta de ter mais movimento emocional e psicológico dos personagens. De resto a trama é muito similar.

BN: Como foi o desenvolvimento da linguagem visual do filme. Há vários momentos em que a imagem está bastante clara, ou distorcida, com muita luz. Isso foi uma escolha sua?

Meirelles: Sim, pois a gente precisava representar a cegueira com imagem, o que é difícil. Então o que eu e o Cesar Charlone [Diretor de Fotografia] tentamos fazer foi criar vários truques pra tirar um pouco a confiabilidade ou a importância das imagens. Então, tem muitos momentos que a imagem está fora de foco, ou você vê apenas um reflexo, ou o reflexo do reflexo, um enquadramento muito errado, torto, e também usamos este truque de deixar a imagem muito branca, porque a cegueira da qual a gente está falando as pessoas não enxergam as escuras, elas enxergam tudo branco, como se estivessem num mar de leite como é descrito no filme. Em vários momentos realmente você não consegue ver a imagem de tão branca que ela está e tudo isso, de certa forma, ajuda a por o expectador neste mundo da cegueira, ou seja, num mundo no qual você não pode confiar muito na imagem porque ela não te diz muito. Ela é meio torta, meio errada.

BN: Anos atrás você havia tentado fazer este mesmo filme. Como foi receber o convite para dirigir o “Blindness”?

Meirelles: Pois é, foi uma surpresa! Pois eu quis comprar os direitos do livro em 1997 e o Saramago não vendeu. Um dia eu recebi um telefonema deste produtor canadense me oferecendo a direção, perguntando se eu conhecia essa história, se eu tinha interesse em ler. E eu respondi que não só conhecia como já tinha tentado comprar a história. Daí ele me enviou o roteiro, foi para São Paulo uns três dias depois, conversamos e aqui estou eu. Entrei no projeto e agora estamos lançando o filme.

BN: Como você descreveria a experiência de ter trabalhado com um elenco que tem nomes como Julianne Moore, Danny Glover e Gael Garcia Bernal?

Meirelles: Na realidade é um ‘casting’ pesado em nome, mas de uma leveza para o trabalho impressionante. A Julianne Moore é extremamente generosa, fácil de lidar, comprometida com o trabalho. Todos os dias ela chegava no ‘set’ cheia de idéias e com vontade de trabalhar.

Para falar a verdade, acho que esta foi a experiência de filmagem mais agradável que eu tive, pois o elenco ficou tão unido, ficou tão amigo, a gente dava tanta risada juntos. O período das filmagens foi muito gostoso, muito bom, muito pela integração da equipe. Pois trabalhando numa historia tão sombria, foi curioso de ter tido uma experiência tão agradável na realização.

BN: O filme recebeu críticas em Cannes, após a primeira apresentação. Depois disso algumas modificações foram feitas. As críticas influenciaram nessa decisão?

Meirelles: O filme recebeu crítica, mas a gente nem mudou muito em função das críticas. Talvez um pouco, mas principalmente porque o filme não estava acabado. Nós corremos muito para ter o filme pronto e conseguir apresentar em Cannes, e não tivemos tempo nem de checar a cópia. Nós só checamos na projeção com mil pessoas já em Cannes. Então, saindo do festival fomos acabar direito o filme, demos um tempo e repensamos algumas coisas e tal. Aí, eu recoloquei algumas cenas que eu tinha tirado no início, tirei algumas narrações que tinha colocado e achei melhor ficar sem elas. Com isso, acho que o filme ficou no tom certo, vamos ver o que vai acontecer. No Brasil o filme foi lançado há oito semanas e está indo extremamente bem, contabilizando 800 mil expectadores, o que no Brasil é um ótimo resultado. No México eu soube que está muito bem também. Está saindo no Japão, Portugal e aqui [Reino Unido], dia 21.

BN: Eu conversei com o escritor Don McKellar anteriormente sobre a internacionalização dos personagens, utilização de várias línguas e não identificação de uma cidade específica. Mas o livro do Saramago transparece certa particularidade, ou mesmo em função da narrativa dele.

Meirelles: Porque é muito português você diz?

BN: Você não sente isso?

Meirelles: Eu quando li o livro, eu sempre imaginava que aquela história, aquele lugar era meio Lisboa nos anos 40 ou 50. Eu li o livro com essa imagem. Mas no filme a gente não queria fazer isso, pois se a gente faz algo assim, as pessoas iriam achar que é uma história sobre Portugal, sobre a época do Salazar, entre outras leituras. Então a idéia foi colocar num local não identificado. Eu filmei muito em São Paulo, mas a gente nunca diz que é São Paulo, as placas são em inglês. É uma cidade grande, genérica, que pode ser qualquer lugar. Intencionalmente eu tirei de Portugal, ou dos Estados Unidos, ou do Canadá. Deixei o filme mais aberto, mais genérico.

BN: Como você lidou com as críticas negativas, principalmente a americana?

Meirelles: Eu soube das críticas, evidentemente, mas eu fui aconselhado a não ler as críticas. Me falaram ‘Vai ficar lendo? Para quê? Só vai te aborrecer e não vai ajudar em nada…’. Então eu não li. Claro que eu preferiria que só tivesse havido críticas boas. Houve algumas boas. O ‘The Guardian’, por exemplo, já que estamos aqui na Inglaterra, publicou uma crítica ótima. Classificou o filme como quatro estrelas, em quatro. Teve também críticas duras, mas eu entendo por que é uma história difícil. Eu não esperava mesmo que fosse um filme que emplacasse de ponta a ponta. Os americanos acham o filme violento demais, o que é curioso vindo de um país que invade os outros, entra em guerra a cada dois anos, que tem esse presidente, acha esse filme violento. Mas eu aceito totalmente a opinião dos outros, eu sou um democrata.

BN: Como foi a reação do Saramago que estava sentado ao seu lado no momento da exibição?

Meirelles: Você consegue ver isso no You Tube, está lá a reação dele. É indescritível!

Don McKellar fala sobre Meirelles

BN: Qual o principal motivo por vocês terem escolhido Fernando Meirelles para dirigir este filme?

Don McKellar: Quando fomos falar com o Saramago ele nos perguntou qual o motivo que a gente queria fazer um filme sobre a cegueira, tendo em vista que o cinema é uma arte visual e obviamente a cegueira é o contrário disso. A gente sempre soube disso, mas isso me fez pensar ainda mais em como deveríamos tratar o problema para que a essência do livro que é tão bela não se perdesse nas telas. Assim, nós sabíamos que precisávamos de um diretor que estivesse pronto para esse desafio. A visualização é essencial e é o centro da história para o filme. Não é algo óbvio ou apenas uma cobertura do filme, mas sim fundamental para o filme, como ele seria visto e entendido. Então, nós teríamos que escolher alguém que fosse possível se adaptar a esta situação, alguém que conseguisse imaginar o filme ao ler o ‘script’. Quando Fernando leu, ele disse que aquilo fazia sentido a ele, e era isso que estávamos buscando.

BN: Como ator, como foi trabalhar com Meirelles?

Don McKellar: Fantástico! Eu tenho certeza que todos os atores concordam que é uma alegria e satisfação trabalhar com Meirelles. Todos o amam! No momento em que você o conhece ele é tão charmoso e gracioso a tão humilde que chega até a chocar! Ele realmente nos inspira a todos a dar o melhor de si, de se envolver no projeto de corpo e alma. Quando eu terminei o roteiro e vim a saber que estaria atuando no filme, eu me preparei psicologicamente para agüentar a experiência que imagina vir a ser a mais dolorosa. E não foi! Foi um prazer surpreendente. Todos os atores ficaram bastante surpresos. Eu me lembro, um dia no ‘set’, após as filmagens das cenas de estupro, duas mulheres que passaram os últimos dias em condições muito aquém das ideais, quando terminou a cena foram até o Fernando e o agradeceram, e ele “Porque você está me agradecendo?”. Eu nunca estive num ‘set’ onde todos estavam unidos, sem esse tipo de hierarquia e tal. E isso é por causa do Fernando, sua maneira de trabalhar.

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