Semana Bossa Nova: eventos em Londres, com participação de Carlos Lyra, celebram 50 anos do estilo

Entre show, concertos e peças teatrais, Londres vai exalar Bossa Nova na próxima semana


Londres pode não ter Corcovado, nem Cristo Redentor, nem calçadão à beira-mar de Copacabana; porém, durante a próxima semana, não faltará a bossa que um dia foi inspirada nestes cenários. Não uma simples ‘Bossa’, mas aquela, a ‘Nova’, que conquistou o mundo ao ouvir os primeiros acordes compassados e a cantoria mansa de João Gilberto nos dois compactos que inauguraram o movimento – “Chega de saudade” / “Bimbom” e “Desafinado” / “Oba-la-lá”. Também nos idos de 1968, foi lançado o álbum “Canção do amor demais”, com músicas de Jobim e Vinicius interpretadas por Elizeth Cardoso, que trazia duas faixas com o violão de João.

Este ano é considerado o marco inicial da Bossa Nova, começando ali o movimento que consagraria toda a geração de músicos brasileiros como Nara Leão, Carlos Lyra, Luizinho Eça, João Donato, Roberto Menescal, Baden Powell, etc. E, mesmo meio século depois, os críticos acreditam que a Bossa Nova segue viva e ainda “emblema da música brasileira no exterior”, segundo a crítica musical Zuza.

Entre entrevistas para jornais e programas de televisão, fotos e filmagens, a vida agitada de Carlos Lyra reflete que a bossa continua mais viva do que nunca. Numa missão impossível de fisgá-lo em casa, o Brazilian News teve que se render a uma entrevista por e-mail para que os leitores não perdessem a oportunidade de ouvir suas histórias e saber um pouco mais de como anda os preparativos para a festa em Londres.

Brazilian News: Para você, qual o sentimento e a importância destes 50 anos da Bossa Nova – como um dos fundadores e como músico?

Carlos Lyra: A convicção de que realizamos alguma coisa importante: uma música que preencheu uma lacuna que havia na música e na classe média brasileira. Essa classe média não tinha música e, portanto, ou se satisfazia com a música popular da Rádio Nacional, ou importava a música de classe média dos Estados Unidos com seu jazz e seus compositores clássicos como Cole Porter, ou do México com seus compositores de bolero, ou ainda, em menor escala, com a canção francesa.

BN: Sabes dizer quem batizou o “movimento” com o nome de Bossa Nova?

Lyra: Esse pseudo-movimento foi batizado numa apresentação no Grupo Hebraico, em 1957, onde o diretor social do mesmo, alegando que tinha criado esse nome para o nosso grupo, apresentou-nos como um grupo Bossa Nova.

BN: É bastante comum os músicos, intérpretes e compositores ligados à Bossa Nova trabalharem em conjunto, seja gravando, compondo, fazendo show e turnês. Praticamente todos são amigos, ou conhecidos, e já trabalharam juntos. Como explica isso? Seria reflexo de como o estilo foi desenvolvido há 50 anos, na rua Nascimento e Silva 107?

Lyra: O nascimento da Bossa Nova na Rua Nascimento Silva, 107, é outra lenda que dá como marco o nascimento do disco de Elizeth Cardoso, em 1958, elaborado naquela residência.

Os shows feitos com a colaboração de vários artistas é uma demanda do próprio mercado que, apresentando vários artistas de uma vez, estabelece um atrativo maior para o público.

BN: Já ouvi sua história sobre o célebre show no Carnegie Hall, NY, no documentário da BBC. Mas podes contar rapidamente os bastidores desse show pros leitores do Brazilian News e explicar a importância deste show na história da Bossa Nova?

Lyra: Fomos para Nova Iorque, contratados por um produtor para fazer o Concerto no Carnegie Hall. Quando chegamos vimos uma fila enorme e achamos que eram pessoas para comprar o ingresso, mas logo vimos de que se tratava de uma fila de pessoas que estavam lá para cantar. O produtor não tinha em mente fazer um grande espetáculo e sim, gravar tudo que fosse possível para lançar um disco. Por isso, não havia feito qualquer seleção quanto a quem se apresentaria e só veio a selecionar, depois, quando montou o disco. No palco, se apresentou uma mulher tocando maracas, um sujeito tocando guitarra nas costas e um policial de São Paulo que fazia passos de Escola de Samba e gritava agradecendo ao produtor por tê-lo deixado se apresentar. Era tudo um festival de aberrações e eu, inconformado com aquilo fui conversar com o Tom nos bastidores. Encontrei-o sentado num banquinho, com a testa apoiada na mão, também estarrecido com aquilo tudo e propus irmos embora sem cantar. Ele me respondeu: “Carlinhos, você assinou aquele papel?” e, frente a minha resposta positiva, acrescentou: “Aqui não dá pra fazer essas coisas. Aqui tem cadeira elétrica!” Visto isto, acabamos nos apresentando e no final, o que ficou foi a boa impressão causada por aqueles que tinham, realmente, algo a mostrar. A platéia estava repleta de músicos de jazz e produtores que acompanhavam a Bossa Nova desde o lançamento do LP do João Gilberto que trazia uma coisa diferente aos ouvidos deles. Com isso a Bossa Nova entrou nos Estados Unidos junto com o Beatles e se propagou pelo mundo aonde é tocada até hoje. O concerto, apesar dos pesares foi fundamental para abrir as portas internacionais para a nossa música.

BN: Quando moraste no México estiveste em contato com grandes personalidades como Gabriel Garcia Marques, Otavio Paz, Carlos Fuentes, entre outros. Qual a influência que o México deixou em sua música?

Lyra: O México já tinha deixado influência na minha música quando, muito tempo antes, nos anos 50, adquiri um disco de lucho Gatica, que possuo até hoje, chamado Inolvidables, que apresentava além de um violonista maravilhoso chamado Arturo Castro, músicas de compositores que muito influenciaram meu trabalho tais como Agostin lara, Gonzalo Curiel, Maria Griber, Sabre Marroquin e outros…

BN: Qual parte da produção de um disco você gosta mais? Prefere compor, gravar em estúdio ou sair pra fazer show?

Lyra: Sem dúvida alguma, compor é o que mais aprecio e é um grande prazer, mas gravar em estúdio é ver a realização de uma obra. É como um arquiteto que faz o projeto, mas se realiza quando ve a construção erguida. Show já é outra coisa. É o contato com o público e é a hora em que a gente põe a prova se a música agrada ou não. Então, é um conjunto de coisas com princípio, meio e fim.

BN: Qual o tipo de show que mais gostas de fazer, tipo banquinho e violão em teatro ou pra grandes platéias? E qual a diferença de fazer show no Brasil e no exterior?

O tamanho da platéia não importa. O que importa é a qualidade dessa platéia. Claro que fazer shows para platéias brasileiras é muito mais descontaído e fácil de comunicação, mas fazer show em inglês, espanhol ou francês não deixa de ser um desafio. Uma experiência diferente.

BN: Como você vê essa reinvenção da Bossa Nova, que vem acontecendo nos últimos dez anos, com a fusão da música eletrônica que o Bossa Cuca Nova e a Bebel Gilberto estão fazendo?

Lyra: Não vejo nenhuma reinvenção na música eletrônica, mas sim uma nova maneira de interpretar onde a participação desses artistas mais jovens é muito bem vinda além de inevitável, onde a inquietude e a expressão das gerações mais novas se manifestam. A música eletrônica adiciona elementos dançantes que levam a Bossa Nova a novas platéias, despertando o interesse dos que não tinham acesso a ela. Esses mesmos jovens vão à procura da Bossa Nova tradicional. É uma renovação de público.

BN: Qual sua expectativa para o show no Barbican, próximo dia 26 de maio?

Lyra: Que seja o mesmo sucesso que foi em Paris onde lotamos o Cirque D’Hiver por três noites consecutivas com uma média de 1700 pagantes por dia apesar da capacidade ser só de 1400.

BN: E para a peça Pobre Menina Rica, como será sua participação nessa apresentação especial, do dia 27?

Lyra: Essa apresentação é uma espécie de homenagem a mim onde a minha participação deve ser muito pequena. Apenas uma curiosidade e uma cortesia ao público presente.

BN: Quando acabar todas essas comemorações, qual teu próximo projeto/trabalho? Promete incluir Londres no roteiro?

Lyra: Vou aonde sou convidado, com o maior prazer. Se não fui a Londres me apresentar até hoje é porque não devo ter causado interesse aos produtores londrinos, mas com certeza, se houver convite estarei aí. Meu próximo trabalho é o lançamento de meu livro de memórias musicais, pela Editora Casa da Palavra, onde conto a história da Bossa Nova, e que virá com dois CDs com 48 faixas. O livro será bilingue (português e inglês) e espero que seja lançado no mundo todo.

(entrevista cedida ao iG – http://igpop.ig.com.br/bossanova/noticias/2008/08/18/entrevista_especial_de_carlos_lyra_1577038.html)

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