Atores brasileiros encenam Nelson Rodrigues, em inglês, em Londres

Autor e atores brasileiros, montagem e língua inglesa. Esta pode ser uma breve descrição da peça teatral produzida pela companhia StoneCrabs “Toda Nudez Será Castigada”, ou melhor, “All Nudity Shall Be Punished” que estreou na terça-feira, 25, e seguirá em cartaz até o dia 19 de julho, no Union Theatre (204 Union Street – SE1).

Com apresentações de terças a sábados, com ingressos variando entre 8 e 12 libras, três atores do elenco – Najlla Kay, Natan Barreto e Laura Arantes – devotam um carinho a mais ao espetáculo, pelo simples motivo de que dividem a mesma língua e país do dramaturgo e escritor brasileiro, Nelson Rodrigues.

Os três já eram atores no Brasil, com currículos longos que nem conseguem mais contabilizar quantas peças já participaram. Com motivos diversos – como a maioria dos brasileiros – pelos quais os levaram a vir morar em Londres, eles tiraram 30 minutos pouco antes da segunda apresentação da temporada para conversar com o Brazilian News e repartir um pouco a experiência de fazer teatro em inglês, para o público internacional, interpretando um texto de Nelson Rodrigues.

Najlla, em 2005, fez a “Valsa nº 6”, um monólogo, também de Nelson Rodrigues, em que atuou falando em inglês, numa época em que ainda não dominava e não se sentia segura com a língua. “Desta experiência eu percebi que era possível ser atriz aqui e, ainda mais, trazer escritores do Brasil pra cá, assim como a gente leva Shakespeare entre outros pro Brasil”, revela a atriz natural de Vitória da Conquista, interior da Bahia.

Natan, que interpreta o personagem principal Herculano, defende que a aceitação dos textos e visões surreais de Nelson Rodrigues podem ser comparadas com as do cineasta Pedro Almodóvar ou do dramaturgo Garcia Lorca, o que é reconhecido por qualquer cultura do mundo, com aspectos regionais, porem sem ser bairrista e fechado a uma nacionalidade. “Nelson pega elementos que são universais e coloca tudo juntos, causando aquela loucura, com sentimentos bastante intensos, à flor da pele”, explica.

Natan ainda vai além e descreve em poucas palavras, segundo ele mesmo, a história do melodrama Rodriguiniano. “O meu personagem é Herculano, um homem puritano, católico, de 42 anos, que teve relações sexuais apenas com mulheres, sua esposa morreu de câncer de mama. Ele continua em luto com um amor sem fim por ela, nessa relação louca. Ele tem um filho que também é apaixonado pela mãe e compartilha o luto do pai e que pede ao pai para que este nunca mais tenha relações sexuais com nenhuma outra mulher. Essa relação entre pai e filho é muito forte. Mas tem o irmão de Herculano, que seria o malandro da história, que consegue persuadi-lo a encontrar Geni, a prostituta. Quando isso acontece é como se o monstro que estava escondido dentro de Herculano, na sua religião, na relação com a sociedade, da forma que se reservava do mundo, vem à tona, auxiliado pela bebida e pela prostituta. Daí que desenrola o enredo e o público aceita e gosta muito porque entendo o melodrama da situação, e é engraçado e surpreendente”, conclui. Najlla complementa “É tão dramático, é tão absurdo, que chega a ser engraçado esse exagero e essa mistura dos piores sentimentos humanos, a obsessão pela morte”.

Num balanço sobre a primeira apresentação, eles concordam que esse tom de comédia foi essencial e ajudou a ajustar o ar mais pesado que o turbilhão de sentimentos trabalhados por Nelson no texto possa causar a platéia. “O público ontem [terça-feira, 25] riu muito”, lembra Natan. “E olha que essa é considerada a peça mais pessimista de Nelson Rodrigues”, ressalta Najlla. A explicação pode ser tirada do humor inglês, que mundialmente, é definido como negro e sem graça – mas isso já é uma outra discussão.

Laura relata um desses momentos jocosos e absurdos da montagem. “Herculano fala para as tias que o filho está o condenando por ele passar talco nos pés. ‘Vocês acham isso obsceno’, pergunta as tias. E as velhinhas respondem ‘Achamos! Claro!’. E nesse mundo soturno de Nelson que faz a loucura parecer tão sana”, conta meio que já interpretando as velhinhas, com uma voz teatralizada.

Interpretar em Inglês

Natan, após ter tido uma formação acadêmica em interpretação teatral, na UniRio, e desenvolver a profissão de ator ainda no Brasil por algum tempo, acabou deixando os palcos de lado, durante em sua jornada internacional – chegou a morar em Paris e Roma. Há 16 anos em Londres, ele realizou muitos trabalhos como intérprete e escritor. No ano passado, foi voltando a atuar em pequenos papéis e fazendo pontas e, para marcar seu retorno aos palcos, encara logo um Herculano de Nelson. “Está sendo uma volta muito forte, ainda mais com a questão da língua. Nós três somos atores brasileiros que falam Português e percebemos isso ao fazer uma peça. Por mais que todos falem inglês, nós sabemos que vamos gaguejar, que não conseguiremos nos expressar da mesma forma que a gente se expressa e se comunica em Português. É fácil perceber isso nos ensaios, lendo o texto que iríamos apresentar em inglês, mas corríamos para o original em português, para dizer a frase em nossa língua mãe. Pois quando lemos em português e algo orgânico, o que não acontece com o inglês, que seria como uma língua Filha Adotada, bem diferente da nossa língua Mãe, que é ajudada por ela”, teoriza.

Com 34 anos fazendo teatro, os últimos três em Londres, Laura conta que dirigiu sua primeira peça aqui e em Inglês. “Eu já fiz alguns trabalhos em Inglês, mas todos menores. Esta peça que eu dirigi, acabei tendo que atuar em função da desistência de uma das atrizes, o que não foi muito problemático, pois eu havia ensaiado bastante o texto com os atores, ajudando a memorizar e tal. Mas estou achando ‘Toda Nudez’ mais difícil, por ser um drama e eu ter mais experiência com comédia. Adoro ver o público rindo. Acho que sou como um palhaço. E eu avisei o diretor, cuidado comigo, pois eu adoro uma comédia!”, diverte-se Laura, que interpreta a tia e o padre.

Público brasileiro

“Infelizmente, eu acho que o nosso público não é brasileiro. As pessoas não têm costume e cultura de ir ao teatro no Brasil, o que é uma pena. Eu tenho contato com alguns brasileiros e eu sempre convido todos a vir assistir ao espetáculo, eles dizem que vem, mas é muito raro alguém aparecer mesmo”, lamenta Najlla.

“Por uma questão de amizade, alguns ainda vem assistir, mas pela questão cultural, eu acredito que não. Nosso público é constituindo de ingleses e amigos íntimos. Outros brasileiros, interessados em ver um espetáculo brasileiro montado aqui é uma parcela muuuito menor”, concorda Natan.

“O perfil do brasileiro que está em Londres hoje é completamente diferente do brasileiro de 20 anos atrás. O de 20 anos atrás viria assistir pelo elo cultural, os de hoje estão ligados na televisão – falada em português! –, e ficam em casa para assisti-la”, indigna-se levemente Laura.

Talvez a língua, talvez a questão financeira, vários são as desculpas que os atores conseguem levantar para que o público brasileiro não seja freqüente nos assentos do teatro. Agora, depende de cada brasileiro, morador da capital inglesa, contradizê-los e ir prestigiar os conterrâneos que enfrentam, na Inglaterra, praticamente os mesmo problemas em trabalhar com arte e cultura do que no Brasil.

Patrocinadores

Com um apoio bastante reduzido e a concorrência maciça dos musicais, Najlla, Natan e Laura afirmam que, apesar de ter uma economia equilibrada e geradora de renda, é tão difícil quanto no Brasil obter patrocinadores para a cultura, seja ela qual for.

Os patrocinadores desta montagem são The Royal Victoria Hall Foundation, Embaixada do Brasil em Londres, The Mercers company, Canning House, Friends of Latin America Expression, Union Theatre e outros anjos como Alvin Wong, Edward Day, Adam Elphick, Yvette Francis, David Newlyn Gale, Tom and Adah Kay, Dr. Adrian Lim, Harald & Esther Oberbeck, Gill Phillips, Garth Robertson, J Roelofs, N Martin Smith,
Jenny Thompson, Debora Eiko Batista Takeuchi, James Scott, Dr Richard Mead.

Ficha técnica

Direção Kwong Loke.

Designer Ryszard Andrzejewski.

Elenco Najlla Kay, Natan Barreto, Tyrone James, Patrick Ross, Ruth Posner e Laura Arantes.

Produção StoneCrabs.

3 responses to “Atores brasileiros encenam Nelson Rodrigues, em inglês, em Londres

  1. Paulinha, legal ver que está dando tudo certo pra vc. Vou virar leitora assídua. Bjos Maira

  2. Olá Paula,
    parabéns, muito legal teu trabalho… Amei…
    Assisti o show da Maria Rita aqui em Floripa, foi fantástico…
    estou com saudade,
    grande beijo

  3. João Vitor Andrade

    Oi Paula. Tudo bem? Li a matéria no seu blog sobre atores brasileiro encenando Nelson Rodrigues em Londres. Sou ator e estou de mudança para Londres no final de Abril. Gostaria muito de fazer algo na área teatral. Um curso, um estágio ou ate mesmo integrar algum grupo. Voce poderia me ajudar com alguma dica? Muito obrigado🙂

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