SIMPLESMENTE “O PARQUE”

O Hyde Parque está para os londrinos assim como o Central Parque está para os nova-iorquinos e o Ibirapuera, para os paulistanos. Quando em algumas dessas cidades alguém se refere “ao Parque”, utilizando apenas o substantivo comum sem nome próprio, esta implícito indiretamente que se trata desses parques. Sendo os maiores e mais centralizados parques destas metrópoles, oferecem possibilidades de entretenimento parecidas a cada uma dessas cidades, contudo cultivam especificidades características de cada lugar e cultura (ou mistura delas). No Hyde Parque encontramos mais de quatro mil árvores, um lago, um descampado, monumentos, trilhas, quadras, centros esportivos espalhados por 1.400 km2 entre áreas nobres e históricas da capital inglesa.

Uma dessas especificidades do Hyde Parque localiza-se no lado nordeste, perto do Marble Arch (arco de mármore), e é conhecida como Speakers’ Corner (Esquina do Discurso). Ali, usando caixotes de madeira ou tablados para não tocar o chão – fato que isenta o orador das leis e tradições britânicas, pois este não esta pisando em solo inglês –, qualquer cidadão pode praticar seu direito de livre expressão discursando sobre temas diversos e polêmicos. Onde antes era um ponto de enforcamento e punição para aqueles que eram contrários ao regime e “falavam demais”, o local foi marcado definitivamente como um lugar simbólico que predomina a democracia acima de tudo, em 1855, num discurso feito por Karl Marx que deu inicio as grandes greves da revolução industrial e foi o primeiro de muitos eventos históricos mundiais registrados por esta esquina. Outros que passaram com seus caixotes foram Fredrick Engels, Vladimir Lênin, George Orwell e William Morris. Apesar de toda sua forca democrática, em 15 de fevereiro de 2003, as autoridades impediram um evento na Speaker’s Corner para protestar contra a guerra do Iraque.

Da Esquina dos Discursos, seguindo pelo lado da Rua North Carriage Drive, avistamos o Portão Rainha Victoria, de onde descendo pela Rua North Ride, em direção ao lago, está o Santuário dos Pássaros. Ali, num descampado, durante a migração de inverno, várias espécies aproveitam este reduto silencioso e calmo para descansar após voarem por uma área imensa de asfalto e concreto. Alguns pássaros raros como alvéolas-cinzentas, olhos-dourados, e bandos de patos selvagens também podem ser avistados pelos gramados do Hyde Parque. Se continuarmos o contorno do Parque subindo pela Dorchester Ride, completamos a rota denominada Ring (Anel), retornando a Esquina dos Discursos. O Anel que foi projetado originalmente no século XVII pelo Rei Charles I, quem começou a dar ao parque sua aparência atual.

O lago Serpentine é onde se concentram a maioria dos visitantes, que querem mais é aproveitar o melhor que o parque tem a oferecer. Os melhores cafés e restaurantes estão localizados ao seu redor. As trilhas para cavalgar acompanham suas margens, paralelamente às calçadas de pedestres, corredores, ciclistas, patinadores, etc. Mas o papel principal está reservado ao próprio lago, onde podemos alugar barquinhos ou pedalinhos para explorá-lo por todos os cantos, andar no primeiro barco movido a energia solar de UK que faz um percurso de 20 minutos pelo lago. Nadadores, desde o século passado, usam suas águas para exercício, ignorando o clima não muito propício a prática da natação. Uma curiosidade do Serpentine é que este foi o primeiro lago artificial construído na Inglaterra com um formato não muito usual, para dar a impressão de que na realidade era natural.

O lago foi uma das idéias para renovação do parque, feitas em 1730, pela Rainha Caroline. Antes disso, em 1536, Henry VIII para ampliar suas possibilidades de caça confiscou o local que pertencia aos monges da abadia de Westminster. Mas foi o Rei Charles I que após algumas modificações abriu os portões do Parque ao público em 1637. Poucos anos depois, durante a Grande Praga que assolou o país, muitos londrinos acamparam no Hyde Parque tentando fugir da doença. No final do século XVII, William III mudou a Corte para o Palácio de Kensington, e achando a rua que usava para cruzar o parque indo em direção a Sant James muito perigosa, resolveu iluminá-la com 300 lampiões criando a primeira rua iluminada artificialmente no Reino Unido. Até hoje a passagem leva o nome de Rotten Row (Rota do Rei).

Com o Serpentine já fazendo parte do cenário, em 1814, o príncipe regente organizou um show de fogos de artifício comemorando o fim da Guerra Napoleônica com a vitória em Trafalgar. Em 1851, o Hyde Parque sediou as Grandes Exibições, motivo pelo qual o famoso e magnífico Palácio de Cristal foi erguido provisoriamente às margens do lago. Mais recentemente, um memorial em homenagem a Princesa Diana de Gales foi erguido entre o Serpentine e a Rotten Row, e em pouco tempo, tornou-se uma das atrações mais visitadas em Londres trazendo um milhão de visitantes todos os anos.

Com toda essa procura, por duas semanas ao ano, geralmente em novembro, o local é fechado para manutenção e troca das calçadas. O monumento trata-se de uma fonte oval formada por 545 blocos de mármore de carrara, cada um cortado utilizando máquinas de última geração e montadas manualmente com técnicas tradicionais. O designer da fonte tenta refletir a vida da Princesa, com a água escorrendo do ponto mais alto da fonte em duas direções originando pequenas cascatas borbulhantes, até chegar à parte mais baixa do círculo, formando uma piscina com águas mais calmas. Uma qualidade muito reconhecida em Diana foi sua abertura em tratar qualquer tema e a maneira fácil que aproximava as pessoas, para retratar isso há três pontes que possibilitam a passagem sobre as águas até o coração da fonte.

Saindo do Memorial e cruzando a Rotten Row, encontram-se as quadras de tênis e um campo de bocha, jogada sobre a grama, onde e possível marcar jogos durante todo o ano. Uma arena destinada ao hipismo e um parquinho também estão localizados deste lado do Hyde Parque.

Então escolha um dia e desfrute, porque em Londres “O Parque” é o Hyde.

Fanáticos por cinema

Desde o aparecimento do cinema, O Hyde Parque tem sido uma locação constante. O primeiro filme da historia foi gravado perto do Portão Apsley, uma manhã de janeiro de 1889, pelo seu inventor britânico William Friese-Greene. Tratava-se da primeira experiência com uma câmera e filme no mundo, que possibilitava sua exibição posterior em tela. Friese registrou cenas cotidianas de pessoas caminhando pelo Parque, o que colocou o Hyde num dos momentos históricos mais gloriosos: o nascimento da sétima arte!

Em 1944, no clássico de David Lean, This Happy Breed, os personagens Frank e Ethel Gibbons passando pela Esquina dos Discursos, param a fim de ouvir um pregador do Partido Fascista Italiano falar a multidão, quando Frank diz a célebre frase “Que tal uma xícara de chá?”.

O Parque teve grande importância no filme Genevieve, de 1953, sobre a corrida anual de carros entre Londres e Brighton, que ainda hoje tem sua partida no Hyde. A rua Rotten Row esta presente nos créditos de A Volta ao Mundo em 80 Dias (1956), épica adaptação de Julio Verne. Um dos bancos da Rotten Row foi o local onde o personagem de Michael Caine, em Ipcress – O Arquivo Confidencial (1965), marcava seus encontros clandestinos. As quadras de tênis perto dali também foram locações para o filme Um Toque de Classe, quando a personagem de Glenda Jackson aprendia o esporte com o personagem de George Segal. Este filme rendeu a Glenda seu segundo Oscar de melhor atriz.

Saudação das Armas

A Saudação Real das Armas marca ocasiões especiais da Coroa Inglesa. Nestes dias, tiros são disparados em diferentes locais no Reino Unido, incluindo o Hyde Parque. Em seu campo, a Tropa Montada da Artilharia Real dispara 41 tiros, pontualmente ao meio-dia, no dia 6 de fevereiro para celebrar a ascensão da Rainha Elizabeth II ao trono, no dia 21 de abril para comemorar o aniversario da Rainha e, em 2 de junho, para homenagear sua coroação.

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