Maior feira de construção ecológica do mundo mostra que é possível construir e reformar imóveis sem prejudicar o planeta. Os britânicos já aderiram a nova onda
(Reportagem publicada na revista Brasileiros em maio 2009)
Água da chuva é redirecionada da calha para um reservatório: pesquisa, criatividade, tecnologia. Grama e flores crescem planejadamente na parede e no telhado: ideias inteligentes, pensamento ecológico, sustentabilidade. Lixo orgânico vira adubo no jardim: mudança de comportamento, eficiência. Todos estes conceitos parecem complicados, caros e distantes do momento atual de crise, mas a EcoBuild – maior feira de construção ecológica e sustentável do mundo, que acontece anualmente em Londres desde 2004 – provou o contrário com suas 800 exibições, seus 100 seminários e dezenas de palestras e entrevistas.
Na edição deste ano, foram três dias em que arquitetos, engenheiros, jardineiros, donas de casa e decoradores puderam conferir pessoalmente o que existe de novo no mercado para construir, ou reformar, sem prejudicar o meio ambiente. Casas ecologicamente corretas não são apenas mais uma opção de construção civil na Inglaterra, são obrigação. Tanto que o governo planeja, até 2016, construir apenas casas que sigam à risca as normas de proteção ao meio ambiente, de acordo com a campanha lançada na feira pelo Chefe Executivo do UK Green Building Council, Paul King. O UK-GBC é uma instituição do governo inglês idealizada para ‘melhorar dramaticamente a sustentabilidade’ da construção civil transformando a maneira como é planejada, desenhada, construída, mantida e operada, ajudando a moldar uma nova parceria entre governo, industrias e stakeholders.
Para orientar o nível de sustentabilidade de cada construção há uma escala que vai de 1, indicando casas que emitem mais carbono, até 6, nível ideal que significa a não emissão do gás (‘zero carbon’). Ao final dos próximos sete anos, devem ser construídas apenas habitações carbono zero na Grã-Bretanha – atualmente a construção civil de residências é responsável por 27% da emissão de CO2 no Reino Unido. Para diminuir este índice o governo concede benefícios, abatimento de impostos, assistência no financiamento, entre outras ações. “Estamos lançando um Código de Sustentabilidade em Construção para que até 2050 o mercado da construção civil na Grã-Bretanha seja totalmente livre da emissão do carbono”, reiterou King em sua apresentação.
Apesar do ambicioso plano governamental, o apresentador do programa Grand Designs, do Canal 4, Kevin McCloud, lembra que há pequenas e imediatas ações bastante relevantes que podem ser tomadas em residências e ambientes de trabalho. “Há uma lista extensa de pequenas coisas que podem fazer grandes diferenças, por exemplo, economizar energia com lâmpadas fluorescente, melhorar o isolamento nas janelas, reciclar o lixo”, cita.
Casas ‘verdes’
Também denominadas de casas verdes, as habitações ecologicamente corretas não precisam ser construídas desde sua fundação. O mercado de reforma é o maior e mais competitivo quando se trata de construção civil na Inglaterra – o índice de construção de novas casas no Reino Unido é o mais baixo desde o final da II Guerra Mundial.
Pequenos projetos residenciais são parte da transformação necessária para que uma casa saia do nível 1 e caminhe em direção ao almejado nível 6 de emissão de carbono, ou melhor, da não emissão do gás.
Mas morar em uma casa ecológica não significa simplesmente cortar a emissão de dióxido de carbono e pronto. Trata-se de um novo conceito de vida que deve modificar comportamentos e, mais que uma tendência em voga, a bioconstrução veio para ficar.
A Brasileiros participou da feira EcoBuild e selecionou idéias criativas, simples e eficientes que podem ser facilmente adaptadas ao mercado brasileiros, apesar de diferenças culturais e de biodiversidade entre o Brasil e a Inglaterra.
Confira os dez passos mais importantes para tornar sua casa mais ‘amiga do meio ambiente’ (ecofriendly).
1) Lâmpadas:
Iluminação consome cerca de 20% da eletricidade no mundo, sendo um dos maiores vilões do aquecimento global. Então a primeira atitude que se pode tomar (e que será notada rapidamente na conta de luz) é a troca das lâmpadas incandescentes, conhecidas como amarelas, pelas lâmpadas eletrônicas ou fluorescentes, as lâmpadas brancas. Apesar de mais caras, a sua durabilidade é até oito vezes maior e a economia é de até 75%.
2) Torneiras:
Há válvulas especiais que podem ser adaptadas a sua atual torneira que diminui a quantidade de água despejada. Estas válvulas são uma espécie de tarraxas com pequenos furos que fazem a água sair borbulhante, economizando até 40% em volume. O mesmo sistema pode ser utilizado para chuveiros e descargas de vasos sanitários, o que economiza cerca de 20 mil litros de água por ano no ambiente familiar (cálculo baseado numa família formada pelo casal e dois filhos). Outra novidade é a ‘eco-banheira’, mais rasa e com o ladrão (overflow) três centímetros abaixo do padrão, que economiza 30 litros por banho.
3) Luz Solar
O Brasil é um país geograficamente privilegiado, que disponibiliza de uma quantidade significativa de luz solar durante todo o ano por longos períodos. O aproveitamento da iluminação natural e do calor para aquecimento de ambientes, denominado aquecimento solar passivo, decorre da penetração ou absorção da radiação solar nas edificações. Para ajudar na iluminação interna a idéia do ‘tubo solar’ é, literalmente, brilhante. Um cano de alumínio capta a luz solar através de uma redoma no telhado e canaliza esta luz para pontos específicos dentro de casa. Ideal para corredores, escadas (locais onde não há janelas), o ‘tubo solar’ dispensa iluminação artificial.
4) Ventilação
A arquitetura ideal de uma habitação deve considerar a rosa-dos-ventos, ou seja, utilizar os pontos cardeais para aproveitar ao máximo os condicionantes naturais (sol e vento) do local. A ventilação cruzada é uma técnica que, através de painéis de PVC ou fibra de vidro, possibilita a alta vazão de ar, mesmo com correntes de pouca velocidade. Este efeito garante a renovação do ar ambiente, dilui vapores e fontes de poluição, deixando a temperatura saudável em todos os ambientes por longos períodos – sem utilizar agentes mecânicos, como ventilador ou ar condicionado.
5) Água reciclada
A água é um recurso finito. Conforme pesquisas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, nos próximos 20 anos, a média mundial de abastecimento de água por habitante terá diminuído em um terço. Atualmente estão em desenvolvimento diversas pesquisas para encontrar meios eficazes de reciclagem da água, e o seu reaproveitamento é estimulado por campanhas públicas.
Sistemas domésticos já são comercializados na Europa e América do Norte e consistem em filtragens mecânicas, biológicas e químicas da água que vai para o ralo em pias, chuveiros e banheiras. Após as filtragens, o último processo é a esterilização, que elimina odor e partículas orgânicas. Por fim, a água está limpa e pode ser reutilizada para outros fins como descarga, lavar roupa, limpeza e jardinagem.
6) Água da chuva
A captação e armazenamento da água da chuva, além de serem processos simples e baratos, trazem vantagens tanto para o meio ambiente quanto para o seu bolso. Reutilizar a água que cai do céu reduz o consumo da rede pública e, consequentemente, seu custo, evitando o desperdício de água potável em descarga, jardinagem ou limpeza. Ecologicamente corretíssimo, a economia de um recurso natural não-renovável, escasso em toda grande cidade e disponível em abundância em telhado, colabora também na contenção de enchentes ao represar parte do volume de água que seria drenada para galerias e rios.
A medida adotada em 2006 pela prefeitura de Curitiba é um grande exemplo a ser seguido. A lei municipal número 293/06 estipula, entre outras coisas, que novas edificações na cidade não obterão o alvará de construção caso não prevejam e instalem um sistema de reaproveitamento de água de chuva.
7) Materiais Renováveis
Pesquisar a origem dos materiais que serão utilizados na construção ou reforma é inevitável para qualquer projeto ecológico. Materiais construtivos renováveis aparecem cada vez mais no mercado da construção civil, desde PVC, concreto e vidro até tintas, pedras e argamassas. Sejam materiais brutos ou reciclados, materiais renováveis ou não, é importante pesquisar como este foi extraído, transportado, manufaturado, processos de reciclagem utilizados, etc; antes de ser incorporado ao seu projeto.
8) Telhados verdes
Jardins nos fundos de casa é coisa do século 20. A moda agora é cultivar plantas e flores no telhado, retomando uma tradição do século 19, que originalmente buscava o conforto térmico das casas. O ‘telhado vivo’ tem isolamento acústico superior ao convencional, ameniza os impactos da mudança climática e transforma as coberturas de edificações em áreas verdes.
Os benefícios não são restritos apenas aos moradores, pois a água retida nos substratos das plantas diminui o risco de enchentes. O telhado jardim também atua como filtro e retém impurezas da poluição do ar, absorve o gás carbônico, diminui o calor urbano gerado pelo reflexo dos raios infravermelhos – comuns nas áreas asfaltadas e grandes massas de concreto – e possibilita a formação de um microecossistema de sua escolha.
A instalação é simples e a sobrecarga em função da vegetação é pouco significativa equivalendo ao peso de uma estrutura com telhas de barro. O custo é superior ao de um telhado convencional, mas levando em consideração a diminuição de gastos com energia de aquecimento, resfriamento dos ambientes e a maior durabilidade, o telhado verde fica mais econômico em longo prazo.
9) Reciclagem
Separar o lixo não é nenhuma novidade. Praticamente todas as cidades no Brasil desenvolvem algum projeto de reciclagem do lixo doméstico. Mas o que os ingleses pretendem é criar consciência ecológica, mudar o comportamento da família para que a reciclagem seja de 100%. Para isso, separação vira seleção.
Lixeiras com divisórias facilitam e ajudam nesse quesito. Não apenas vidro, alumínio, plástico e papel são selecionados; lixo orgânico vira adubo no quintal ou pode ser recolhido em sacolas plásticas biodegradáveis pela prefeitura.
Projetos do governo são fundamentais para a reciclagem seja eficiente nas grandes cidades. Em vários bairros de Londres, as prefeituras locais obrigam seus moradores a separarem o lixo, podendo inclusive aplicar multas em negócios ou casas particulares que não o fazem adequadamente.
10) Energia Solar
Quase todas as fontes de energia – hidráulica, biomassa, eólica, combustíveis fósseis e energia dos oceanos – são formas indiretas de energia solar. Sendo assim, a radiação solar pode ser utilizada diretamente como fonte de energia térmica, para aquecimento de
fluidos e ambientes, ou para geração de potência mecânica ou elétrica. Entre os vários processos de aproveitamento da energia solar, os mais usados atualmente são o aquecimento de água (energia térmica) e a geração fotovoltaica (energia elétrica). A tecnologia fotovoltaica produz eletricidade diretamente dos elétrons liberados pela interação da luz do sol com determinados materiais semicondutores, tal como o silício. O movimento dos elétrons forma eletricidade de corrente direta. Esta energia é confiável e silenciosa, pois não existe movimento mecânico.
No Brasil, a conversão para energia térmica é mais encontrada nas regiões Sul e Sudeste, devido a características climáticas. Nas regiões Norte e Nordeste, em comunidades isoladas da rede de energia elétrica utilizam o processo fotovoltaico.
A tecnologia ainda é bastante cara, mas projetos comunitários desenvolvidos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), em locais isolados no interior do Brasil, tem demonstrado resultados satisfatórios.

Um copo de água de “Coco Verde” de 250 ml gera mais de “1 Kg de lixo”.
DESTAQUE: http://www.cocoverderj.com.br/coberturaverde.htm
http://www.cocoverderj.com.br/jardimvertical.htm
Vamos pensar no assunto?